Eau de Toilette

<div class="at-above-post addthis_tool" data-url="http://paulofodra.com.br/2009/05/eau-de-toilette/"></div>“Eu deixo aroma até nos meus espinhos, ao longe, o vento vai falando de mim.” Cecília Meireles A lata de cerveja vazia escapou da mão, rolando para junto das outras. […]<!-- AddThis Advanced Settings above via filter on wp_trim_excerpt -->
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Um conto de Ano Novo

“Eu deixo aroma até nos meus espinhos,
ao longe, o vento vai falando de mim.”
Cecília Meireles

A lata de cerveja vazia escapou da mão, rolando para junto das outras. O vento soprava seu rosto tentando despertá-lo. Ele já não sentia. Sentado no parapeito da janela, oferecia-se ao acaso, explorando os limites do seu equilíbrio precário sobre a beirada. Entre dedos, um cigarro aceso lançava cinzas no vazio. Espalhadas pela brisa, elas pairavam acima de qualquer sentido e morriam doze andares depois, formando pequenas marcas no piso que separava o prédio da piscina. Ele já não as via. Por debaixo de sua aparente catatonia, seu cérebro trabalhava com rapidez, captando e decodificando os segredos ocultos no ar. Seus cabelos balançavam como se uma mão invisível os despenteassem. O calor da jaqueta envolvia-o como um abraço, enlaçando-o pelas costas e apertando-o firme contra um peito imaginário. Um bafo quente e aconchegante em sua nuca. O torpor causado pela combinação de bebida e nicotina abria-lhe os poros, bagunçava sua sensibilidade. Aquele perfume estava em toda parte e em lugar nenhum. Sentimentos opostos o invadiam, deixando em sua mente os rastros do seu perpétuo confronto. Do seu lado esquerdo, sentia o vazio da liberdade: um mundo estranho e hostil, porém emocionante, quase irresistível. Do seu lado direito, o conforto e a segurança claustrofóbica do lar: o tédio da rotina e a certeza de saber onde se está pisando. Sentir o perfume e saber que ele não está ali. Quis que o tempo passasse depressa para que não se perdesse mais em alegrias ilusórias. Odiava acordar desejando trocar a realidade pelo sonho. Aos poucos, os fogos começaram. Lá embaixo, as pessoas abraçavam-se e beijavam-se, mas seus olhos notaram apenas o fulgor das frenéticas estrelas artificiais que acendiam e apagavam. Pensou no brilho daqueles olhos que conhecia bem e há muito aprendera a amar. Aos poucos, aprendia a odiá-los também, mas apenas o suficiente para manter a sanidade. Lembrou-se do desenho dos lábios que sussurravam palavras doces em seu ouvido. A quem dariam o seu beijo de Ano Novo? Atormentado pelo pensamento, ele fechou os olhos e rezou. Pediu paz, cura, esquecimento. Recebeu apenas mais perfume.

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