O Legado

Ideais não morrem jamais

“Now that you are gone casting shadows from the past /You and all the memories will last”
Kamelot – “Don’t you cry”

Com um movimento leve e doce, Cláudia abriu a porta. As forças lhe faltaram e, por um momento, ela teve que se apoiar no batente para não cair. A casa estava vazia demais sem ele.

Se alguém visse aquela figura frágil caminhando pelo corredor, levando nas mãos uma caixa de papelão, tomaria-a por uma assombração arrastando-se, trôpega, para a ala norte da construção. As lembranças estavam por toda parte: nos quadros na parede, na poltrona em frente à lareira e até mesmo no doce aroma de tabaco que já se dissipava no ar.

Trêmula, estancou em frente a uma porta trancada, no final do corredor. Hesitou. Sabia que o que viera buscar estava do outro lado, mas também sabia que não suportaria entrar no estúdio outra vez. Pensou por um momento, respirou fundo e, por fim, girou a maçaneta.

Ali estavam elas. Todas as fotos de Sérgio, cobrindo painéis, paredes, móveis. Para ele, paixão, hobby, compulsão. Para ela, seu último legado, tudo o que ele deixou. Não podia abandoná-las ali.

Cláudia aproximou-se do primeiro painel. Retirou o alfinete que prendia a primeira foto e colocou-a na caixa, sentindo seu coração despedaçar-se. Temia não conseguir terminar.

Colocando as fotos na caixa, uma a uma, ela foi percebendo o porquê da sua beleza inquietante. Elas transpiravam vida, eram naturais. Sérgio nunca pedira para bater uma foto, tampouco apreciava que lhe fizessem poses. Por isso elas continham sentimentos, expressões, alegrias, tristezas, decepções. “Cada foto é um fragmento de uma vida inteira eternizado em um pedaço de papel.” – era o que ele dizia. E era o que ela sentia ao contemplar sua obra.

Ele fotografara tudo: festas de família, passeios, viagens, visitas. Nunca fora muito impulsivo, mas vivera com intensidade todos os momentos da sua vida, sempre com a sua câmera a tiracolo, registrando tudo. Quando perguntavam porque ele fazia isso, ele respondia apenas: “A vida é fugaz”. Mas que diabos! Por que ele tinha de estar certo? Por quê?

As lágrimas de Cláudia caíram sobre a caixa, juntando-se ao seu passado, às suas lembranças. Ela nunca se perdoou por tê-lo deixado ir sozinho para a casa da mãe naquela noite. Ela ainda se lembra do telefonema da polícia, do bombeiro entregando-lhe a câmera de Sérgio com a objetiva quebrada, que ainda guardava consigo. As fotos foram se somando na caixa. Tantos rostos, tantos lugares. Não apenas uma, mas muitas vidas congeladas ali, em breves instantes. Pequenas partes de um todo muito maior.

“Vidas passam, lembranças se perdem, mas são os ideais que constroem o mundo. Estes não morrem jamais!”

O estúdio foi ficando nu, irreconhecível, triste. Ela sabia que não voltaria mais lá, assim como sabia que sua vida nunca mais seria a mesma. Cláudia colocou a última foto na caixa e ergueu-a nas mãos. Não havia mais nada a fazer ali. Antes, porém, de fechar a porta atrás de si, ela colocou a caixa no chão, tirou da bolsa a câmera de Sérgio e bateu uma foto do estúdio vazio.

“Ideais não morrem”, pensou, trancando a porta.

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