Aposta

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Como perder a sua alma no poker
“Ouvir vozes que ninguém mais consegue escutar
não é um bom sinal, mesmo no mundo da magia.”
J. K. Rowling

– Vou aumentar a aposta! – disse o homenzinho amarelado que estava no canto escuro, empurrando todas as suas fichas para o centro da mesa.

Gabriel achou graça no modo como o sujeito tentava esconder o nervosismo, girando com seus dedos alongados o grande anel de aço que usava no indicador da mão esquerda. Visto através da garrafa de whisky vazia, aquele rosto quadrado parecia ainda mais inumano.

“Está blefando”, murmurou para si enquanto os outros jogadores, um a um, desistiam da rodada. Via tudo em câmera lenta por causa da bebida. Passar da conta fora uma constante para ele nos últimos meses. Não lembrava direito como foi parar naquela mesa de jogo clandestina nos fundos do bar, nem de onde surgiram seus parceiros de jogo. Olhou para as cartas em sua mão e resolveu partir para o ataque. Perdera muito dinheiro essa noite. Precisava recuperar. Foi quando percebeu que ficara sem fichas. Frustrado, deu um soco na mesa, resmungando entre dentes:

– Eu apostaria a minha alma agora!

Fez-se um silêncio profundo na mesa. Gabriel ergueu os olhos e viu que todos olhavam pra ele com um profundo respeito.

– Aposta aceita! Mostre suas cartas! – disse o homenzinho, solene, erguendo suas grossas sobrancelhas.

– Era só modo de falar…. – Gabriel empalideceu. Seu mundo começou a girar acelerado, o ar escapando rapidamente dos seus pulmões.

Os outros jogadores protestaram. A aposta fora feita às claras e aceita. Eram testemunhas. Voltar atrás não seria uma atitude louvável.

Com o coração aos pulos, Gabriel teve vontade de sair correndo dali e sumir. Mas um pensamento maldoso logo veio à sua cabeça e o fez ficar onde estava. “Ele está blefando, eu não vou perder! Além do mais, fugir agora significaria perder tudo do mesmo jeito”. Acalmando-se, começou até a achar graça na solenidade dos outros jogadores. Então, confiante, abriu o seu jogo na mesa.

Dois ases, três damas: tinha um full house. Uma boa mão.

Sem mover um músculo do rosto, o homenzinho espalhou suas cartas sobre o tecido verde: 4, 5, 6, 7 e 8, todas de espadas. Straight flush.

Gabriel perdera! Sua vista escureceu, e ele teve a impressão de que todos os jogadores tinham rostos tortuosos, com estranhos olhos amarelos que o observavam desmaiar com a cara na mesa. O mundo desfez-se em preto.

Gabriel acordou assustado, com um suor gelado cobrindo seu corpo. Estava em seu próprio quarto, sem roupas. A cabeça doía a ponto de explodir.

– Bebe, desgraçado! – disse para si mesmo. – Nossa, que pesadelo, hein?

Levantou, ainda zonzo, e cambaleou em direção ao banheiro para lavar o rosto. Foi quando percebeu que em seu indicador direito havia um grande anel de aço liso. Seu coração disparou. Tentou tirar o anel do dedo. Não conseguiu. Encheu o dedo de sabão. Nada. O anel girou livremente no seu dedo, mas não soltou de jeito nenhum. Depois de passar quase uma hora tentando livrar-se do anel, desistiu. Vestiu-se e decidiu sair. Tentaria voltar ao bar da noite anterior.

Não conseguiu encontrá-lo. Poderia ser qualquer um, já que muitas vezes ia a mais de um por noite. Imerso no torpor semi-consciente da bebida, era muito difícil distinguir um do outro. Refez a parte do percurso que lembrava, mas nenhum bar da região tinha mesa de jogo nos fundos.

Desanimado, voltou pra casa. Ao entrar, tropeçou em pacote que havia sido enfiado por baixo da porta. Rasgou o embrulho. Era um caderno em branco, com capa de couro marrom. Não havia nenhum tipo de pista que pudesse dizer de onde aquilo viera, nem o que significava. Resolveu pensar nisso depois. Jogou o caderno na gaveta da escrivaninha e se atirou na cama. Suas pernas doíam por causa da peregrinação e a cabeça ainda latejava seu final de ressaca. Deixou-se levar pelo sono noite adentro, pois não ia ter forças para uma nova bebedeira.

Despertou quando o relógio bateu marcando meia-noite. Engoliu em seco ao lembrar que não havia relógios na casa. Imóvel na cama, tentou descobrir de onde vinha o som. Podia ouvir ao fundo os barulhos habituais da noite lá fora – o uivo triste dos cachorros da vizinhança, os passos apressados de um ou outro pedestre – mas as badaladas enchiam a casa, como se viessem das próprias paredes. Assim que o relógio parou, ele ouviu um murmúrio solitário ao longe, uma voz rouca de mulher. Tentou compreender o que ela dizia, mas não conseguiu. O murmúrio ficou um pouco mais intenso, e ele pôde distinguir que na verdade eram duas vozes. O mais estranho é que elas não pareciam conversar. Pela entonação, parecia mais que cada uma falava para si.

Uma brisa gelada fez Gabriel estremecer na cama. Sua respiração condensava em vapor ao sair de sua boca. De onde diabos vinha aquele frio, se a casa estava toda fechada?

As vozes se aproximaram mais, e agora pareciam ser três. Gabriel correu até a janela e a abriu, na esperança de encontrar na rua a origem das vozes. As calçadas estavam vazias. Às suas costas, as vozes continuavam. Identificou algumas palavras soltas no meio da confusão, embora sem sentido algum. Eram quatro vozes, ele tinha certeza agora, cada uma com timbre e entonação próprios. Vasculhou a casa: não havia mais ninguém ali, mas as vozes estavam cada vez mais intensas. No início pensou que recitassem algum tipo de oração, mas à medida em que elas ficaram mais nítidas, começou a entender: eram histórias. Lendas soturnas, sombrias, há muito tempo esquecidas. Falavam sobre deuses perdidos, amores proibidos, cidades arrasadas, buscas eternas. Todas contadas ao mesmo tempo. E elas não paravam de chegar, já passavam de uma dezena. Atordoado pelo falatório dissonante, Gabriel tampou os ouvidos. Não adiantou: as vozes vinham de dentro da sua cabeça, brigando entre si por sua atenção. Apavorado, correu pelo quarto batendo a cabeça contra a parede, em uma tentativa desesperada de livrar-se daquele turbilhão crescente de histórias alheias. Podia senti-las à sua volta, pares de olhos amarelos à espreita.

Ele compreendeu, então, que só havia uma coisa a fazer. Correu até a escrivaninha e vasculhou até tocar o couro macio da capa do caderno. Colocou-o aberto sobre a mesa, pegou uma caneta e, tentando focar ao máximo em uma das vozes, começou a escrever. Preenchendo as páginas em um ritmo frenético, foi silenciando uma história por vez. O anel ardia em sua mão, fazendo com que ele fizesse pequenas pausas para girá-lo no dedo, afim de aliviar a sensação. Já era praticamente dia quando a última história se foi.

E foi assim que as histórias passaram a visitá-lo pelo menos três vezes por semana, arrancando-o do seu sono para que ele as transcrevesse. Ao longo dos anos, Gabriel foi ficando cada vez mais cansado. Seu rosto, agora encovado, ostenta um olhar nervoso, inquieto. Cinco décadas depois, ele apenas espera por elas. E nas noites em que elas não aparecem, ele sai à procura de alguém que possa substituí-lo.

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