Para sempre

Você quer mesmo viver para sempre?

“Desejar a imortalidade é desejar a perpetuação eterna de um grande erro.”
Arthur Schopenhauer

Deviam ter me avisado que a vida eterna não incluía saúde eterna. Mas isso não estava escrito naquele maldito livro que encontrei. Disse as palavras certas, fiz o sacrifício adequado, foi tudo muito simples, na verdade. E durante oitocentos anos, funcionou muito bem. Compelido pela minha falsa juventude, eu vivi a vida de maneira intensa e irresponsável, arrumando desafetos e me arriscando como se eu fosse invulnerável. Até que, um dia, um marido traído me deu um tiro pelas costas. A bala se alojou na minha coluna, e eu fiquei tetraplégico. Preso a uma cama para sempre, o médico disse, mas ele não sabia que o meu “para sempre” era muito, muito tempo.

Por motivos óbvios, eu não podia mais desaparecer antes que as pessoas percebessem que havia algo errado comigo, e foi aí que os problemas começaram. Um antigo empregado, que estivera comigo desde a sua infância, sentindo-se às portas da morte, resolveu colocar a natureza de volta ao seu curso normal. E despejou, naquilo que chamavam de minha comida, uma dose cavalar de um veneno da pior espécie. Eu estrebuchei durante dias, sentindo dores horríveis na pequena porção que ainda me era sensível do corpo. Fui levado para um hospital, mas os médicos não conseguiam compreender o que estava acontecendo comigo. Eu rezei muito pra que a morte viesse e me livrasse desse duplo sofrimento. Mas ela não veio, e antes da dor ir embora, minha visão escureceu por completo e nunca mais voltou.

Os dias arrastavam-se incansáveis. Cada vez mais longos e iguais. No escuro da minha mente, eu conseguia ouvir as pessoas cochichando entre dentes à minha volta. Eu era uma aberração, e o ser humano sempre dá um jeito de sumir com o que não entende. Não sei dizer quanto tempo se passou até que resolvessem de fato fazer alguma coisa. Afinal, a minha percepção do tempo fora, pouco a pouco, desfigurada pela imortalidade. Uma noite entraram no meu quarto e, com um bisturi, rasgaram minha garganta de fora a fora. Um movimento único e firme. Sabiam muito bem o que estavam fazendo, pois cortaram fundo, para que eu não conseguisse gritar. Deveria ser uma morte horrível, porém rápida. Graças a Deus, ninguém mais além de mim sabe o que acontece quando se tira a morte da equação. Houve pânico quando perceberam que eu não ia morrer. Em meio à minha infindável e silenciosa agonia, pude ouvir a discussão. Até que um deles teve uma idéia simples, que gelou os meus ossos: ignorar que eu não morrera.Fui enfiado em um caixão apertado. Afixaram a tampa e, além da tranca, martelaram pregos em toda a volta. Queriam garantir que eu não saísse mais dali. Senti um baque quando me deixaram cair na cova do cemitério, mas daqui, não dá pra ouvir mais nada. Devem ter me enterrado bem fundo, pois o silêncio é absoluto. Não posso gritar, não posso me mexer. Também não posso morrer.
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