Ilícito

Você conseguiria abandonar um velho hábito?

Tem que ser hoje. – pensou Jaime – Não dá pra esperar mais!

Suas mãos suadas apertaram ainda mais o volante, tentando conter o tremor que recomeçara. Hesitou por um instante, então arrancou a gravata com um único puxão. Limpou o suor da testa no punho da camisa e, nervoso, tornou a segurar o volante. Tinha que ser agora.

Com um movimento brusco, o carro cruzou as três faixas da avenida em direção ao retorno, o que provocou um coro de buzinas em protesto. Jaime sequer percebeu. No estado em que se encontrava, ignorava por completo o caos que dominava a metrópole. Concentrar-se ficava cada vez mais difícil. A cada segundo, aumentava a consciência de que o que desejava estava ali mesmo, em um pequeno pacote oculto sob o banco do passageiro.

Não posso! – ponderou, os dentes trincando de tensão. – Não com as ruas lotadas de gente e sensores para todo o lado. Quantos Vigilantes estariam misturados à multidão? 

Ele sabia muito bem o que acontecia quando alguém violava a Interdição. Presenciara a cena uma vez. Fora tudo muito rápido, mas ele nunca pôde esquecer os gritos. Não mesmo. Até os que nunca tiveram motivo para temer tinham pesadelos com isso.

Enrijeceu-se no banco e obrigou-se a pensar em outra coisa, ou não conseguiria chegar até a estrada. Seus pensamentos flutuaram, desconexos, por alguns minutos e, por fim, pousaram nas lembranças da sua vida antes da Interdição. Ele não podia culpar-se por isso, sua geração era a que mais sofria. Tinha cerca de vinte anos quando tudo começou.

Naquela época a cidade era mais suja e malcheirosa, mas as pessoas ainda tolevaram-se umas às outras. Conseguia-se comprar a droga em qualquer esquina e fazer uso dela na maioria dos lugares, sem qualquer tipo de sanção. Era um ritual pessoal. Mas o costume começou a perder a força e alguns lugares começaram a proibi-lo uso em respeito às pessoas limpas. Foi o bastante para que ele ganhasse novo fôlego. As proibições começaram a ser desrespeitadas, gerando constrangimento e preconceito. Então o governo resolveu interferir.

Baseado numa antiga lei esquecida, o uso foi proibido em todos os lugares públicos fechados e a fiscalização endureceu. Em pouco tempo, as calçadas e ruas foram tomadas pelos usuários e por seu odor característico, formando uma verdadeira barreira humana para quem quisesse entrar ou sair de qualquer lugar. O preconceito intensificou-se, e suas manifestações ficaram cada vez mais violentas. A resposta do governo foi enérgica, proibindo qualquer uso público da substância. As ruas esvaziaram-se e a vida noturna da cidade quase desapareceu. Os Sujos trancavam-se em casa, sozinhos ou em pequenos grupos, e consumiam quantidades absurdas da droga. À essa altura, o preconceito se transformara em ódio mútuo, e os vizinhos Limpos começaram a reagir.

Para evitar uma guerra civil, o governo baixou a Interdição, uma medida extrema e radical, proibindo totalmente o comércio da droga e banindo qualquer uso detectável por seus sensores em um raio de cem quilômetros em torno da cidade. A pena era a execução sumária e imediata. Muitos Limpos extremistas alistaram-se nas forças da Vigilância, e o que se sucedeu foi uma carnificina legalizada, que impôs a lei pelo medo.

Passados quase dez anos, os Sujos que sobreviveram permaneciam escondidos. Poucos conseguiram de fato abandonar o vício, pois a droga era potente demais. Os Vigilantes, novamente misturados aos civis, só se revelavam quando ocorria uma violação. A sociedade vivia em tensão constante, pois não era mais possível saber quem era quem. As pessoas afastaram-se umas das outras, e assumiram um comportamento hostil. Mas a cidade estava limpa, uma utopia em verde e cinza.

Jaime dirigia em alta velocidade pela estrada, os olhos fixos no horizonte. Até que seus olhos captaram ao longe o marco verde que procurava. Ao aproximar-se da grande placa na qual se lia “Limite da Interdição Municipal – Respire por sua própria conta e risco”, saiu para o acostamento, reduzindo a velocidade. Lançou o carro em uma pequena trilha de terra batida que conduzia a uma grande clareira na vegetação. Havia muitos carros estacionados ali.

Encontrou um lugar entre eles e parou. Enfiou a mão ávida embaixo do banco do passageiro e apanhou o embrulho pardo em seu esconderijo. Desceu do carro aos tropeços e sentou-se sobre o capô. Dentro do pacote havia um maço de cigarros vagabundos, todo amassado, que comprara, por um preço absurdo, de um contrabandista. Segurou um deles entre os dedos e o cheirou, deliciando-se com o aroma. Bateu a mão livre nos bolsos, e percebeu, com horror, que não trouxera isqueiro ou fósforos.

– Tome, use o meu! – um homem, sentado no capô de um carro próximo, atirou-lhe um isqueiro. O objeto descreveu uma curva perfeita no ar, e Jaime apanhou-o sem dificuldade. Ao fundo, pessoas conversavam animadas, e havia música alta vinda de um dos carros.

Jaime acendeu o cigarro e jogou o isqueiro de volta, tentando lembrar se já tinha visto aquele homem na cidade. Não importa! – concluiu, soprando a fumaça de sua primeira tragada – Aqui, somos todos amigos!

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