Ângelo,
Ao acordar, encontrei o teu recado escrito a sangue em meu espelho. “Eu odeio você!”. Só então percebi o corte recente em meu antebraço. Ardia, é verdade, mas o contraste das letras vermelho-vivo sobre a prata me entorpeceu. A caligrafia era inconfundível, mesmo traçada a dedo. Imaginei teu braço pesado a segurar a lâmina contra a minha pele, meus pelos arrepiando-se de instantâneo. Tua mão a rasgar-me a carne em fenda torta, fina e funda. A ferida latejando a cada bafejar de tua respiração acelerada. Tudo enquanto eu dormia. Ah, como eu queria ter sentido o teu dedo nodoso violar os meus tecidos! Tive você sob a minha pele, encharcando-se em meu sangue, e nem pude saboreá-lo em mim. Ao menos, sei que sentiu tanto tesão quanto eu estou sentindo agora. O travesseiro está manchado, então você esfregou meu sangue no teu rosto. Sei que isso te excita – fluidos, perversão, tudo o que é proibido –, enquanto meu delírio é a tua existência, as tuas marcas em meu corpo. Queria ser capaz de fazê-las eu mesmo, decretar minha independência de você. Mas isso me é impossível, pelo mesmo motivo que me impede de olhar bem no fundo dos teus olhos cinzentos e gritar tudo o que sinto. Não. Tenho que escrever. Sempre faltou-me a tua coragem. Enquanto eu despejava um caminhão de entulho sobre meus desejos, você buscava os teus à luz do dia. Nas profundezas desse aterro, descobri-me a desejar-te. A violência que o teu espírito pedia era o meu combustível, minha válvula de escape. Eu queimava. E a cada piranha que você retalhava, meu amor crescia mais e mais. Tantas vezes te visitei. Era isso que te virava do avesso, e fazia o teu ódio por mim aumentar. Foi por isso que você começou a fugir de mim e da fúria que eu te despertava. Mas saiba, meu amor, que não há mais saída. Vivo muito bem dos sinais da tua presença, e as tuas tentativas de ferir-me é que me fazem feliz de verdade.
Teu, em cada célula do corpo,
Guilherme
Ângelo despedaçou a carta e atirou os pedaços para o ar. Apesar do buraco em sua memória, era evidente que Guilherme passara por ali. O espelho fora limpo com afinco. O cinzeiro, sob o qual encontrara a carta, também. O quarto estava arrumado demais, não havia um único objeto fora de lugar. Ângelo bufava em fúria, os músculos do pescoço completamente contraídos. Como era possível que Guilherme vivesse em meio à tanta ordem, enquanto ele não conseguia ao menos organizar seus próprios pensamentos, sua memória? Arremessou o cinzeiro com força contra o espelho, que explodiu enquanto dexiava escapar um urro de desespero e frustração.
Migalhas de sonhos prateados choveram por todo o piso. Nu, sua aparência era tudo menos humana. Caminhou até a sacada com os pés crivados de cacos de vidro, deixando um rastro de pegadas sangrentas. Respirou fundo. Estava cansado de viver assim, estilhaçado como o espelho. Não bastassem as lacunas em sua memória, ainda tinha aquele maníaco perseguindo-o. Curioso é que ele nem lembrava mais em qual momento de sua vida deixara que Guilherme se aproximasse. “Não há mais saída”, sentenciava a carta. Não mesmo, Guilherme? Sempre tem! Quer ver? Sem aviso, Ângelo saltou o parapeito, como se fosse voar.
A queda silenciosa durou quinze andares e terminou, com um baque surdo, em uma pilha moribunda de carne e ossos quebrados. Por instantes, tudo fez sentido, e então se desfez. Reunidos, Ângelo e Guilherme encontraram-se um no outro, ainda que apenas para uma estranha despedida.
– Ângelo, meu amor, você me fez feliz como ninguém…
– Ah, Guilherme… até que enfim, me livrei de você!


Entrou para a minha lista de amados odiáveis! – Junto com o Carriço, Denison Mendes e Salviano.
Uau! Que honra! Vindo de você, que é cheia de quintanices, significa MUITO! Beijo!
Gostei!
Primeiro conto seu que eu vejo abordar um lado mais psicológico e suas patologias. Não sei se é o único, mas com certeza, agora, fiquei impelida a procurar por mais…
‘sonhos prateados choveram por todo o piso…’
sem palavras!
Cara, muito bom!!!
Você manda muito bem…
Incrível história…
Abs
Muito obrigado pela visita, Samuel! Um abraço!
Demaaais….te sigo no twitter e agora estarei sempre por aqui..Adorei o dúbio,sóme toquei da idéia do conto o final dele. Li e reli. Profundo, com um ar psicótico super dramático, enfim…perfeito.
Virei fã…
abraços,
Jaque
Obrigado, seja muito bem vinda por aqui! Fique à vontade para fuçar o quanto quiser! Abraços!
meu amigo, excelente conto.
abraço.
Obrigado pela visita, Denison! Que honra!
Grande abraço!
Ótimo conto, Paulo!
Te sigo no twitter e vim dar uma espiadinha em seu blog.Magnífica história de amor,apesar de trágica.Adoro tudo isso.
bjssssss
A tragédia está sempre ao alcance da nossa mão ao longo da vida. Quem nos dirá quando essa linha será cruzada?
Obrigado pela leitura e pelo comentário!
Bjs!
Oi Paulo! Vim aqui ler-te e me deparei com um texto que prende do início ao fim… e mesmo trágico, fala sobre o amor. Acho que nenhum outro sentimento consegue reunir a morte, a dor e o prazer como o amor..
Ah esse amor… por vezes pra nos livrar-mos dele, só a morte, ou nem assim, que sabe…
Fantástica tuas letras!
beijos doces!
A mente humana é um labirinto complicado. E quem se perde lá dentro, às vezes não consegue mais encontrar a saída…
O Amor, o ódio, a possessividade, a loucura, são todos vizinhos turbulentos!
Obrigado pela leitura e pelo comentário,
Beijos!
Parabéns meu camarada… tá muito bom a casa nova…
abraço e (mais) sucesso!
Obrigado, Ferris! Mudanças ainda virão… o que não pode é ficar parado!
Paulo:
Cada pessoa que lê, tem ponto de vista diferente porque junto com o comentário vai a crença de cada um.
E sobre o amor existe mesmo uma infinidade delas.
Acredito que no amor é preciso que as pessoas envolvidas precisam estar olhando na mesma janela para desfrutar a mesma paisagem. Uma comunhão de horizontes…
Ou em outras palavras: estarem em sintonia.
Até mais!
Anny.
Dizem que o amor precisa de opostos. Outros dizem que precisa de iguais.
Penso que o amor só precisa de duas ou mais pessoas dispostas a se consumir.
Um amor não correspondido. Quer dizer… Um lado correspondia, o outro não.