Latência

Somente embaçado o espelho é fiel. A nitidez escraviza. Por isso, ela deixa a água quente a ponto de ferir a pele. Como se já não queimasse por dentro. Desejo, febre, culpa. Ansiedade. Pêlos. Presas dentro dela, muitas outras. Famintas. Tantas vidas e um só corpo. Brilho mortiço da Lua. Carne nua. Crua. Sangue. Sonhos estranhos. Profanos. Sagrados enganos. Profética morfina. Contornos no escuro. Seda, suor e unhas. Sim. Você se lembra dela de algum lugar. Ela poderia ser a estudante quente. Ou a sua vizinha crente. A moça que passeia os cachorros da vizinhança. A viciada que bateu sua carteira. A punk passeando no shopping. A jovem triste na fila do cinema. A hacker que roubou seus dados. A hippie manifestante. A puta que amparou o velho caído na calçada. A amiga louca da sua prima. A professora comportada da escola em frente ao teu prédio. A adestradora de cães assassinos. A solteirona entediada na cafeteria. A sedutora dançarina da boate.

Talvez ela seja mesmo todas. Talvez, nenhuma. Ao menos enquanto a água estiver bem quente, ninguém saberá.

 

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