Margens

margens

 *Conto publicado originalmente na Revista Mescla #13

Chelsea saiu da festa correndo. Não sabia pra onde ia, mas só parou quando o som de suas passadas encobriu a música por completo. Então deixou-se cair de joelhos e vomitou. Expulsou a música ensurdecedora, o calor, a bebida, as drogas e todas as sensações que a sufocavam, em um jorro quente e viscoso sobre o asfalto. Enxugou a boca na manga da blusa e puxou os cabelos para trás, deixando que a brisa suave às margens do Tâmisa aplacasse sua sede de ar. Buscou seu reflexo na água para que pudesse se recompor. Não o encontrou. Esse era o problema. Desde que voltara a Londres, sentia-se deslocada. Uma completa estranha. Foram ao todo dois anos fora, estudando na Nova Zelândia e em Portugal. Dois anos de independência e descobertas. E pra quê? Para voltar e descobrir que nada mudou. Os amigos continuavam indo aos mesmos lugares e fazendo as mesmas coisas. Sua antiga rotina estava lá, inalterada, e isso a frustrava. De início culpou o clima sombrio e os problemas característicos da cidade. Mas agora, Chelsea sabia que o problema era com ela. Já não era mais a mesma e esse era um caminho sem volta. Tinha visto um mundo diferente, com novas possibilidades, e o resultado disso fora a descoberta de um poço sem fim de ansiedade.

– Você está bem?

Uma mão pesada pousou em seu ombro e ela gritou, apavorada. Seu primeiro impulso foi fugir, mas ela logo reconheceu o rapaz que a abordara. Ela o vira na festa bebendo e dançando. Chamava muita atenção pelo porte esguio e pelo terno e chapéu brancos que destoavam em meio a multidão. Chelsea apenas fez que sim com a cabeça, sem muita convicção, e saiu andando.

– Desculpe, eu não queria assustá-la. – O desconhecido segurou-a pelo braço, gentil, desdobrando o melhor sorriso que tinha. – Tome. É pra você.

Sem graça, Chelsea aceitou a garrafinha de água que o jovem lhe oferecia. Tinha pressa em sair dali e afastar-se da poça malcheirosa formada pelo seu próprio vômito.

Como se pudesse ler pensamentos, o rapaz recomeçou a andar. Aliviada, Chelsea bebeu a água em generosos goles, tentando se livrar do gosto amargo em sua boca. O enjôo passava e ela se pegou hipnotizada pelo dourado que cintilava naquele par de olhos sob o chapéu, mesmo na escuridão da madrugada.

– De onde você é? – A garota não conteve a curiosidade.

– Eu nasci no Brasil, mas já não consigo ficar por lá. Quando se descobre o tamanho do mundo, nosso rio parece tão pequeno, não acha? A propósito, meu nome é Cauê.

– Na verdade, meu Tâmisa é muito menor que o seu Amazonas. – Chelsea suspirou. – Mas o que você diz não me parece nada estranho, Cauê!

Lágrimas correram pelo rosto de Chelsea, que não esperava encontrar tão perto de casa alguém que a compreendesse. O semblante dele parecia iluminado, quente, divino.  Em um impulso, ela afundou a cabeça – e com ela suas inseguranças – no peito de Cauê.

Ele a abraçou, sem falar nada. Espalhou com o dedo as gotas penduradas nos olhos dela e a beijou.

– O que você é? Um anjo? – Entorpecida, Chelsea estremeceu nos braços do rapaz. A aura dourada que emanava dele a invadia e arrebatava. Um desejo que queimava e, ao mesmo tempo, curava. Uma sensação nada natural. – Ei! Você me drogou!

– A vida é uma droga. – Ele a deitou no chão ali mesmo, na margem do rio, e a tomou para si.

Chelsea despertou a tempo de ver uma criatura rosada rastejar até a água, levando na boca um coração. Parecia-se com um golfinho e seus olhos faiscavam como o sol. Nua e sozinha, a garota sentiu o vazio em seu peito gritar quando o animal desapareceu na correnteza. Sem que ela soubesse, porém, um pedaço dele crescia em seu ventre. Uma semente que daria um novo sentido à sua vida.

 

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